segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

O fim da linha


Terça-feira dia 26 de Janeiro. Dia de Orçamento. O Primeiro-ministro José Sócrates, o Ministro de Estado Pedro Silva Pereira, o Ministro de Assuntos Parlamentares, Jorge Lacão e um executivo de televisão encontraram-se à hora do almoço no restaurante de um hotel em Lisboa. Fui o epicentro da parte mais colérica de uma conversa claramente ouvida nas mesas em redor´.

Sem fazerem recato, fui publicamente referenciado como sendo mentalmente débil (“um louco”) a necessitar de (“ir para o manicómio”). Fui descrito como “um profissional impreparado”. Que injustiça. Eu, que dei aulas na Independente. A defunta alma mater de tanto saber em Portugal. Definiram-me como “um problema” que teria que ter “solução”. Houve, no restaurante, quem ficasse incomodado com a conversa e me tivesse feito chegar um registo. É fidedigno. Confirmei-o. Uma das minhas fontes para o aval da legitimidade do episódio comentou (por escrito): “(…) o PM tem qualidades e defeitos, entre os quais se inclui uma certa dificuldade para conviver com o jornalismo livre (…)”.

É banal um jornalista cair no desagrado do poder. Há um grau de adversariedade que é essencial para fazer funcionar o sistema de colheita, retrato e análise da informação que circula num Estado. Sem essa dialéctica só há monólogos. Sem esse confronto só há Yes-Men cabeceando em redor de líderes do momento dizendo yes-coisas, seja qual for o absurdo que sejam chamados a validar. Sem contraditório os líderes ficam sem saber quem são, no meio das realidades construídas pelos bajuladores pagos. Isto é mau para qualquer sociedade. Em sociedades saudáveis os contraditórios são tidos em conta.

Executivos saudáveis procuram-nos e distanciam-se dos executores acríticos venerandos e obrigados. Nas comunidades insalubres e nas lideranças decadentes os contraditórios são considerados ofensas, ultrajes e produtos de demência. Os críticos passam a ser “um problema” que exige “solução”. Portugal, com José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Jorge Lacão e com o executivo de TV que os ouviu sem contraditar, tornou-se numa sociedade insalubre.

Em 2010 o Primeiro-ministro já não tem tantos “problemas” nos media como tinha em 2009. O “problema” Manuela Moura Guedes desapareceu. O problema José Eduardo Moniz foi “solucionado”. O Jornal de Sexta da TVI passou a ser um jornal à sexta-feira e deixou de ser “um problema”. Foi-se o “problema” que era o Director do Público. Agora, que o “problema” Marcelo Rebelo de Sousa começou a ser resolvido na RTP, o Primeiro Ministro de Portugal, o Ministro de Estado e o Ministro dos Assuntos Parlamentares que tem a tutela da comunicação social abordam com um experiente executivo de TV, em dia de Orçamento, mais “um problema que tem que ser solucionado”.
Eu. Que pervertido sentido de Estado. Que perigosa palhaçada.

Mário Crespo - Jornalista

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Educação: o caminho à prosperidade

Como sabemos e até já estamos enjoados, a situação económica em Portugal, hoje com reflexos mais que evidentes na condição social, cultural e financeira da população portuguesa, é um plano inclinado sem retrocesso nos últimos 15/20 anos. A geração de riqueza e as condições do mercado de trabalho deterioraram-se como nunca antes acontecera, tornando a realidade de hoje cruel e injusta para os mais pobres, aqueles que estão mais dependentes do «aparelho público». É neste sentido que procuro lançar umas ideias sobre aquele que para mim é o maior problema do nosso país e que, sendo de certa forma atalhado, resolveria ou aliviaria muito os restantes problemas que afectam o funcionamento das instituições democráticas.

A evolução da economia portuguesa assemelha-se ao gráfico apresentado em baixo.

Um cenário devastador da nossa actual realidade e que exigirá, obviamente, novos caminhos e renovadas abordagens à sociedade. A par deste caminho económico que trilhamos, com influência na riqueza da população, no endividamento do Estado (que precisa de financiar o necessário «Estado Social») e na descrença do investidor e empresário, está a situação do emprego. O empresário e o patrão portugueses já não acreditam nas capacidades formativas e individuais do estudante, formando ou licenciado português.. Há dias um chefe de obra dizia que é incomparável a produtividade de um indivíduo português e um romeno. À medida que ia colocando estrangeiros no seu trabalho, notava um aumento de eficiência e celeridade no trabalho de obra. Será, portanto, de estranhar esta trajectória da taxa de desemprego portuguesa neste mundo globalizado?

Não tenho grandes dúvidas acerca do actual desajustamento e falta de exigência do ensino em Portugal, que se resume a uma espécie de «passeio floral» nas escolas e os quais, como os alunos não têm exames no final do ano, não lhes é exigido que estudem. Além do mais, os programas não têm interesse, os manuais são péssimos e mal dirigidos e o funcionamento das aulas, pouco práticas, não suscitam conhecimento prático e saber indispensáveis. Todo este «caldo» moderno, aliado à fraca qualificação do tecido empresarial português, ainda maioritariamente composto pelo «empresário da 4ª classe», não oferecem condições de evolução necessária ao enriquecimento e sustentabilidade do nosso país.

A minha teoria de que o principal problema do país está na educação é, de certa forma, explicada pelo gráfico da minha autoria, abaixo enunciado. Quando todos concluímos que, em Portugal, nada funciona, seja a justiça, a política, a saúde, a corrupção, a iniciativa privada, só pode haver uma consideração por onde nos debruçar: a educação, os valores e a poupança.

A educação é a raiz de todo o fundamento social e a economia o pêndulo da nossa situação sócio-financeira e bem estar. Como demonstro no gráfico, a educação é a base de toda a estrutura e que ao possibilitar eficiência ao sector privado e ao sector público, tem um efeito positivo indirecto nas finanças públicas e, consequentemente, permite gerir um «Estado Social» justo. Directamente, tem a vantagem de viabilizar e facilitar o acesso ao mercado privado, seja por conta doutrem, seja por conta própria. Pensemos: por que motivo estarão tantas pessoas dependentes do aparelho central e cada vez menos da iniciativa privada e conta própria? Creio que isto terá uma resposta óbvia.

No gráfico, apresento-vos uma síntese da estrutura geral de «governo» de um país. Como podemos observar, a educação (sem antes a família) é o sustento de todo o processo organizacional chamado Portugal. É nela que jogamos o nosso futuro e é esta visão que deve ser dada e a explicação que todos devem imputar às nossas crianças e estudantes. Neles está a esperança e nos pais a sabedoria/experiência. Tive o cuidado de colocar a vermelho os relacionamentos que falham na nossa sociedade, aqueles que, correctamente geridos, possibilitariam dar um bom impulso a toda a «máquina económica». Um está, inclusive, a vermelho e sinalizado, indicando que não apenas carece de ligação como, mais ainda, não estão a ser adoptadas políticas claras que defendam a iniciativa patronal e a livre expansão da economia de mercado.

A linha a vermelho na direita refere-se à relação entre as empresas e o mercado de trabalho a é explicada pela fraca relação entre a formação do trabalhador que leva à ausência de correlação entre as necessidades da empresa e os requisitos de preparação de licenciados e estudantes do ensino técnico-profissional. A resposta para este grande problema chama-se, obviamente, educação.

A outra relação e que defini como proibitiva é a relação entre o poder político e a iniciativa privada. Sabemos que a ideologia socialista defende o intervencionismo do Estado na esfera económica, assunto a que aliás não me oponho a não ser nestes moldes a que assistimos com este governo em especial. A penetração do político no empresarial e vice versa mina o mercado concorrencial em Portugal, criando mais um problema de que não necessitaríamos de modo algum. As tão faladas Parcerias Público Privadas vão contra o capitalismo moderno, de incentivo ao risco e ao investimento gerador de riqueza futura. As PPP´s atentam contra a livre e justa iniciativa de mercado, já que as empresas mais ligadas ao Estado procuram a exploração de negócios de risco em situações lucrativas mas, nas situações de prejuízo, é aquele que assume com as consequências e, obviamente, o contribuinte. Esta é uma questão lateral à formação, mas frontal aos valores e ética que imperam nas nossas personalidades e que a própria mudança geracional e educativa deverá poder alterar.

A situação económica e a desqualificação crescente do novo estudante e do velho empresário resultaram na saída de muitas empresas do nosso país para outros, onde a mão de obra mais barata é, também, mais qualificada. A ideia que tenho desenvolvido nos últimos tempos e creio poder ser um grande problema e, na viragem, a principal solução, assenta no facto do ensino em Portugal não salvaguardar a criação do emprego por conta própria, seja nas áreas económicas, educacionais, artes, música, saúde, todas. Não existe um «tecido prático» em cada tipo de formação e que assegure aos seus executantes a sustentabilidade individual perante a falta de emprego e de, cada vez mais, empregadores.

Aliás, este conceito de orientação para a criação do próprio emprego como refúgio para o cidadão é enriquecedor para a formação individual, moral e profissional, e para o crescimento do produto económico do nosso país. Será um bem necessário já que o sector da indústria terá cada vez menos tendência para empregar, face aos meios de inovação e tecnologias disponíveis no mercado. Portanto, estamos numa situação obviamente viável e recomendável para todos. Não é sustentável que os licenciados de hoje não se sintam capazes de assumir a entrada no mercado de trabalho pela via individual, não sendo, por isso, de espantar que as universidades portuguesas nem apareçam sequer nos rankings europeus.

Outra meta decisiva para as próximas décadas é a inserção de matérias científicas nas licenciaturas em Gestão e Economia, de forma a promover um empresário com conhecimentos em Química, Física e Electrónica e a desenvolver um novo mercado de trabalho orientado e sustentado na inovação empresarial e do produto. As universidades carecem de teor científico associado aos novos desafios de hoje. Lamento, pessoalmente, nunca ter tido qualquer formação universitária em física ou química, pois creio que seria fundamental para conseguir, hoje, criar um negócio rico e líder em inovação. Toda a vertente da educação tem de se virar para a possibilidade de criação do próprio emprego e para as novas tecnologias e inovação. Só assim, poderemos, por um lado, diminuir o desemprego e a calamidade social daqueles que, mais que ninguém, o necessitam e, por outro lado, acrescentar competitividade às empresas nacionais não apenas para que possam «produzir para nós», desagravando a despesa nacional relativa aos bens transaccionáveis do exterior, mas que igualmente possam entrar em novos mercados e gerar riqueza.

Concluindo, os portugueses não poderão deixar de concordar com este facto e, deste modo, deverão assumir novos desafios de mudança neste sentido. Só assim conseguiremos ser todos mais felizes neste belo país que é Portugal e onde adoramos estar, enfrentando a necessidade e adquirindo a coragem e a verdade na hora do voto para quem proclama esta política e define esta prioridade para o combate das próximas décadas. Da minha parte, direi que poderão sempre contar comigo para esta causa.

















Jorge Manuel Honório

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Paul Anthony Samuelson

Nascido em 1915, no Estado do Indiana, na cidade de Gary, Paul Anthony Samuelson foi um dos economistas mais brilhantes de sempre a que o mundo alguma vez pôde assistir. Professor e Investigador, as suas grandes paixões, Samuelson formou, ao longo da sua vasta carreira, diferentes protagonistas, mais tarde vencedores de prémios nobel. Por exemplo, Robert Solow, Paul Krugman ou Joseph Stiglitz.


“In this age of specialization, I sometimes think of myself as the last 'generalist' in economics with interests that range from mathematical economics down to current financial journalism. My real interests are research and teaching”.

O seu estudo incidia principalmente nos caminhos para o bem-estar económico, a programação linear, a teoria Keynesiana, a dinâmica económica associada ao comércio internacional e a condição de maximização nos mercados. Samuelson defendia, acima de tudo, que a matemática era essencial no caminho da percepção dos fundamentos e teorias económicas e, na sua primeira grande publicação em 1947, Foundations of Economic Analysis, o economista defende e suporta devidamente essa sua visão.

O economista ganhou reconhecimento internacional e realizou grandes e significativos contributos para a teoria económica moderna. Como disse um jornalista recentemente, a doutrina Samuelson revela-se até mais importante nos dias de hoje que à data em que foi anunciada. O seu livro Economics: an introductory analysis publicado em 1948 tornou-se o maior bestseller de ciências económicas de sempre e ainda hoje é ferramenta essencial, indispensável a qualquer universidade da respectiva categoria. Os conteúdos do livro foram sendo adaptados ao longo dos anos, ajustados à evolução das novas condicionantes económicas. A primeira edição residia nos princípios de restauração do emprego no período do pós I guerra mundial. As edições seguintes prosseguiam as novas teorias da inflação e os meios fiscais e monetários de combate e controlo deste fenómeno.

No seu último livro publicado, Linear Programming and Economic Analysis, fundamentos matemáticos são aplicados em problemas práticos de comércio internacional, marketing, produção industrial e planeamento. Ficou então provado que a afectação daqueles recursos poderia, a partir de agora, ser analisada de acordo com os modelos matemáticos desenvolvidos por Samuelson.

Samuelson alertava para que as democracias modernas estivessem atentas ao fenómeno da inflação já que normalmente ela atingiria os maiores níveis de preocupação nestas economias de mercado. O grande desafio da economia, cito, estará na capacidade de controlar a diferente evolução e mutação dos aspectos ligados à inflação. Numa entrevista em 1960, o economista deu ases ao nascimento de um novo tipo de inflação, aquela a que chamava “cost-push”. Em oposição à doutrina da inflação tradicional na qual o aumento do poder de compra faz disparar os preços e os salários, a inflação “cost-push” de Samuelson surge quando os níveis de emprego são elevados e que, segundo ele, potenciam a alavancagem dos preços no mercado. Destaca que muitas vezes essa subida criará a ilusão de que estamos a ir longe de mais e a incorrer em sérios problemas conjunturais, mesmo não estando a taxa de emprego em níveis satisfatórios. Indica, no entanto, que o caminho para a prosperidade ligada ao pleno emprego e crescimento sustentável não deverá ser abandonada, devendo, isso sim, serem criados os instrumentos necessários ao controlo deste problema no longo prazo.

Para o economista, uma taxa de desemprego na América acima dos 6% é factor de preocupação mas considera, contudo, muito difícil que a mesma se situe abaixo dos 4%. Uma taxa de 3,5% permitiria uma nova época de sucesso e bem-estar económico, não satisfazendo na perfeição, todavia, os agentes por causa do efeito inverso da inflação “cost-push”.

Num relatório consultivo ao presidente Kennedy em 1961, Samuelson propunha o desenvolvimento de políticas essenciais no plano financeiro dirigidas à economia americana, medidas ancoradas no apoio pelo lado da despesa pública, suportadas em programas educacionais rigorosos, alta prioridade à requalificação imobiliária e obras públicas e projectos de desenvolvimento e aproveitamento de novos recursos: inovação! Para estimular o mercado da habitação, Samuelson propôs a redução das taxas hipotecárias, descontos em hipoteca, seguros comparticipados e a extensão dos períodos de amortização máxima. Ao nível da política monetária, Samuelson recomendou um maior enfoque nas condições de curto prazo, reduzindo taxas de longo prazo e desenvolvendo acções fundamentais em prol do equilíbrio imediato da balança de pagamentos.

Samuelson integrou o M.I.T. em 1940 como professor assistente e passados 4 anos da sua entrada, o reconhecimento pedagógico e científico desenvolvido pelo professor permitiu-lhe ascender ao estatuto de auxiliar. Foi professor de Relações Económicas Internacionais em part-time na Fletcher School of Law and Diplomacy e consultor no National Resources Planning Board nos tempos da II Guerra Mundial. Algumas das funções mais importantes por ele exercidas:

* Membro do United States Treasury, do departamento de assuntos orçamentais e do departamento para os assuntos económicos.

* Investigador na President’s National Goals Comission

* Presidente da Associação Económica Internacional em 1965

Aqui fica prestada a minha homenagem a um dos maiores (senão o maior) guru da economia mundial. Deixo-vos com uma frase mítica e eternamente conhecida do Samuelson e que se deve aplicar a todos nós que lutamos pelo futuro dos nossos povos e pelo reconhecimento necessário das grandes figuras que entre nós figuraram e aquelas que ainda perduram:


“The challenge is great but the prognosis is cheerful”.

Faleceu a 13 de Dezembro de 2009

Jorge Manuel Honório

sábado, 5 de dezembro de 2009

terça-feira, 24 de novembro de 2009

A sucata portuguesa


Tristes os dias que vivemos e o local que habitamos. Deprimentes as notícias que recebemos de políticos, banqueiros, empresários, altas figuras de Estado todos os dias. Demente a situação empresarial em Portugal e as condições económicas em que vivemos, logo esta, a que possibilita os tão desejados grandes salários, subsídios, pensões e excelentes modelos de vida e bem estar social…mas não cá.

Cá é a “sujeira” do dia-a-dia, típica de um país cujo sonho foi a aproximação à Europa mas que se contenta com o Norte de África, aquela “nojeira” que tem sustento na corrupção, no tráfico de influências, na subordinação. Um meio empresarial frágil, incompetitivo e selvagem. Economicamente inoperante e socialmente injusto.

Um aparelho judicial vergonhoso, atabalhoado, temeroso, corrompível e ineficiente. Caracterizado por magistrados e advogados alheios ao bom funcionamento de um dos pilares da democracia, um pilar essencial da economia de mercado, um obstáculo à “importação” de empresas para a criação de emprego no nosso país. Sujeitos que se debandeiam em protagonismo e ligações profissionais aos mais diversos sectores do Estado e da comunicação social, onde as ligações perigosas e destruidoras de um funcionamento pragmático assombra os empresários que, cá, «pretendiam» exercer os seus negócios.

A educação miserável, inexigente, inclusiva e sem resultados finais. Basta-nos comparar o nível de formação de um estudante de leste com o 12º ano e um dos nossos formandos. Um universitário espanhol com um universitário português. As escolas públicas colocam, em oposição, bons e maus alunos, alunos que querem aprender com alunos que “partem” a carteira ou insultam o professor, crianças felizes em casa mas temerosas na escola, absorvidas por um ambiente de autêntico facilitismo e “guerra escolar”. Um sistema inoperante, onde os manuais não têm qualidade e onde o ministério tem excessiva participação, exames onde os maus alunos conseguem o mesmo aproveitamento que os bons alunos. Um país onde a disciplina de Educação Física entra para a média final escolar!

A fiscalidade. Monstra, complexíssima e em constante mutação, onde não se conhece o real estado das empresas, apenas alguns rendimentos declarados. Empresas em insolvência que continuam a pagar o PEC e outros impostos ridículos, que pretendem não combater mas apenas ocultar parte da evasão fiscal que todos sabemos e, no meu caso, comprovamos isso mesmo. Uma fiscalidade tal, que hoje nem um licenciado e mesmo um mestre consegue compreender ou, no mínimo, conhecer, pelo que muitos empresários, especialmente aqueles a que eu chamo “da 4ª classe”, têm dificuldades redobradas em conhecer este regime fiscal actual, por ser diferente do de há uno e incomparável com o de há 10 anos.

Por vezes sonho com uma espécie de 24 ou 26 de Abril para que, pelo menos, se corram com estes políticos insensíveis às necessidades e carências da nação, que lideram para proveito próprio e como carreira de uma vida. Um quadro semelhante ao da década de 20, quando a I república foi “expulsa” pelo povo, dando lugar ao reinado de Oliveira Salazar. Tanto foi assim que, nesse tempo, Mário Soares escreveu um livro “Le Portugal Bailloné” em que descrevia um panorama negro sobre a sociedade portuguesa e que coincide na perfeição com a situação que vivemos hoje. Nesse tempo, o povo foi obrigado a recorrer a Salazar porque os Partidos não deslumbravam soluções imediatas, um pouco à semelhança do que vai acontecendo hoje.

Um país recluso de um lugar onde cada vez menos se quer e se pretende estar, onde não se consegue viver ao nível dos europeus, onde não se conseguirá (e cada vez menos) envelhecer com qualidade e onde a inserção no meio societário é cada vez mais díficil, com as desigualdades em crescendo e com o “esfarrelar” da classe média. Um país onde mais de 50 mil pessoas entre as idades dos 40 e 50 já nem se dignam a procurar emprego e se sujeitam à rejeição de uma vida em condições, num país dito europeu e merecedor de TGV’s e novos aeroportos. Um Brasil na Europa, um riquismo próprio de um qualquer miserável país africano e uma mentalidade sul-americana de mais sol e menos trabalho.

É a triste realidade dos nosso dias, uma situação que não vivíamos desde meados de 1910 e que se agravará durante, pelo menos, mais 10 anos nesta situação. Sem solução à vista, quer no lado do Estado onde governam 2 partidos incapazes, quer do lado da economia onde existe cada vez menos incentivo a vir para cá e cada vez maior distância para a principal concorrência: os países de Leste. O Estado endividar-se-á, cada vez mais, até ao ponto em que não terá mais capacidade para tanto subsídio e pensão, em que elas cairão para 100 e 200 euros e em que a miséria imperará quando, na Europa, nos cortarem o acesso ao capital estrangeiro (muitos já o prevêem no prazo de 5/6 anos). O português, na maioria, uns por ainda terem a 4ª classe e outros vítimas da “educação política” que hoje vigora nas escolas, não compreende e não é capaz de fazer este diagnóstico, não possui discernimento e conhecimento para prever o que acontecerá no nosso Portugal daqui a meia década (se os projectos de obras públicas anunciadas avançarem). Não peçam, a quem se afirma sério e ambicioso, para ficar e lutar pela melhoria do nosso país porque, na realidade e sem um regime diferente, os problemas não serão resolvidos e a população afundará no desemprego e nos baixos salários e pensões, situação que a crise internacional antecipou no tempo e ao qual as grandes obras darão a machadada final.

O amor à pátria já foi chão que deu uva. Hoje o amor é à globalização que tem ainda, como maior obstáculo, a cultura linguística que não se compreende, todavia, como fácil mas que é e deve ser susceptível de uma luta mais justa, sempre com a motivação de que é um objectivo alcançável, ao contrário do objectivo Portugal que não se vislumbra realizável.


Jorge Manuel Honório


Ps: Há muitos meses atrás e aliás num texto meu que está publicado aqui no blog, referia eu que a única via de compensação que se nos oferecia para responder a tal desorçamentação seria a via do aumento dos impostos e explico, inclusive, o porquê da minha visão na altura. Parece que hoje assistimos à confirmação daquilo que era a minha expectativa. Se eu já o sabia, será que os políticos na campanha para as legislativas também não o sabiam? Isto confirma o que refiro neste texto.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

O (E)estado da democracia


Um excelente extracto de uma conversa entre Miguel Sousa Tavares e uma amiga estrangeira num regresso a Portugal, enviado pelo meu amigo André Caeiro.


Segunda-feira passada, a meio da tarde, faço a A-6, em direcção a Espanha e na companhia de uma amiga estrangeira; quarta-feira de manhã, refaço o mesmo percurso, em sentido inverso, rumo a Lisboa. Tanto para lá como para cá, é uma auto-estrada luxuosa e fantasma. Em contrapartida, numa breve incursão pela estrada nacional, entre Arraiolos e Borba, vamos encontrar um trânsito cerrado, composto esmagadoramente por camiões de mercadorias espanhóis. Vinda de um país onde as auto-estradas estão sempre cheias, ela está espantada com o que vê:

- É sempre assim, esta auto-estrada?

- Assim, como?

- Deserta, magnífica, sem trânsito?

- É, é sempre assim.

- Todos os dias?

- Todos, menos ao domingo, que sempre tem mais gente.
- Mas, se não há trânsito, porque a fizeram?
- Porque havia dinheiro para gastar dos Fundos Europeus, e porque diziam que o desenvolvimento era isto.

- E têm mais auto-estradas destas?

- Várias e ainda temos outras em construção: só de Lisboa para o Porto, vamos ficar com três. Entre S. Paulo e o Rio de Janeiro, por exemplo, não há nenhuma: só uns quilómetros à saída de S. Paulo e outros à chegada ao Rio. Nós vamos ter três entre o Porto e Lisboa: é a aposta no automóvel, na poupança de energia, nos acordos de Quioto, etc. - respondi, rindo-me.

- E, já agora, porque é que a auto-estrada está deserta e a estrada nacional está cheia de camiões?

- Porque assim não pagam portagem.

- E porque são quase todos espanhóis?

- Vêm trazer-nos comida.

- Mas vocês não têm agricultura?

- Não: a Europa paga-nos para não ter. E os nossos agricultores dizem que produzir não é rentável.

- Mas para os espanhóis é?

- Pelos vistos...

Ela ficou a pensar um pouco e voltou à carga:

- Mas porque não investem antes no comboio?

- Investimos, mas não resultou.

- Não resultou, como?

- Houve aí uns experts que gastaram uma fortuna a modernizar a linha Lisboa-Porto, com comboios pendulares e tudo, mas não resultou.

- Mas porquê?

- Olha, é assim: a maior parte do tempo, o comboio não 'pendula'; e, quando 'pendula', enjoa de morte. Não há sinal de telemóvel nem Internet, não há restaurante, há apenas um bar infecto e, de facto, o único sinal de 'modernidade' foi proibirem de fumar em qualquer espaço do comboio. Por isso, as pessoas preferem ir de carro e a companhia ferroviária do Estado perde centenas de milhões todos os anos.

- E gastaram nisso uma fortuna?

- Gastámos. E a única coisa que se conseguiu foi tirar 25 minutos às três horas e meia que demorava a viagem há cinquenta anos...

- Estás a brincar comigo!

- Não, estou a falar a sério!

- E o que fizeram a esses incompetentes?

- Nada. Ou melhor, agora vão dar-lhes uma nova oportunidade, que é encherem o país de TGV: Porto-Lisboa, Porto-Vigo, Madrid-Lisboa... e ainda há umas ameaças de fazerem outro no Algarve e outro no Centro.

- Mas que tamanho tem Portugal, de cima a baixo?

- Do ponto mais a norte ao ponto mais a sul, 561 km.

Ela ficou a olhar para mim, sem saber se era para acreditar ou não.

- Mas, ao menos, o TGV vai directo de Lisboa ao Porto?

- Não, pára em várias estações: de cima para baixo e se a memória não me falha, pára em Aveiro, para os compensar por não arrancarmos já com o TGV deles para Salamanca; depois, pára em Coimbra para não ofender o prof. Vital Moreira, que é muito importante lá; a seguir, pára numa aldeia chamada Ota, para os compensar por não terem feito lá o novo aeroporto de Lisboa; depois, pára em Alcochete, a sul de Lisboa, onde ficará o futuro aeroporto; e, finalmente, pára em Lisboa, em duas estações.

- Como: então o TGV vem do Norte, ultrapassa Lisboa pelo sul, e depois volta para trás e entra em Lisboa?

- Isso mesmo.

- E como entra em Lisboa?

- Por uma nova ponte que vão fazer.

- Uma ponte ferroviária?

- E rodoviária também: vai trazer mais uns vinte ou trinta mil carros todos os dias para Lisboa.

- Mas isso é o caos, Lisboa já está congestionada de carros!

- Pois é.

- E, então?

- Então, nada. São os especialistas que decidiram assim.

Ela ficou pensativa outra vez. Manifestamente, o assunto estava a fasciná-la.

- E, desculpa lá, esse TGV para Madrid vai ter passageiros? Se a auto-estrada está deserta...

- Não, não vai ter.

- Não vai? Então, vai ser uma ruína!

- Não, é preciso distinguir: para as empresas que o vão construir e para os bancos que o vão capitalizar, vai ser um negócio fantástico! A exploração é que vai ser uma ruína - aliás, já admitida pelo Governo - porque, de facto, nem os especialistas conseguem encontrar passageiros que cheguem para o justificar.

- E quem paga os prejuízos da exploração: as empresas construtoras?

- Naaaão! Quem paga são os contribuintes! Aqui a regra é essa!

- E vocês não despedem o Governo?

- Talvez, mas não serve de muito: quem assinou os acordos para o TGV com Espanha foi a oposição, quando era governo...

- Que país o vosso! Mas qual é o argumento dos governos para fazerem um TGV que já sabem que vai perder dinheiro?

- Dizem que não podemos ficar fora da Rede Europeia de Alta Velocidade.

- O que é isso? Ir em TGV de Lisboa a Helsínquia?

- A Helsínquia, não, porque os países escandinavos não têm TGV.

- Como? Então, os países mais evoluídos da Europa não têm TGV e vocês têm de ter?

- É, dizem que assim entramos mais depressa na modernidade.

Fizemos mais uns quilómetros de deserto rodoviário de luxo, até que ela pareceu lembrar-se de qualquer coisa que tinha ficado para trás:

- E esse novo aeroporto de que falaste, é o quê?

- O novo aeroporto internacional de Lisboa, do lado de lá do rio e a uns 50 quilómetros de Lisboa.
- Mas vocês vão fechar este aeroporto que é um luxo, quase no centro da cidade, e fazer um novo?

- É isso mesmo. Dizem que este está saturado.

- Não me pareceu nada...

- Porque não está: cada vez tem menos voos e só este ano a TAP vai cancelar cerca de 20.000. O que está a crescer são os voos das low-cost, que, aliás, estão a liquidar a TAP.

- Mas, então, porque não fazem como se faz em todo o lado, que é deixar as companhias de linha no aeroporto principal e chutar as low-cost para um pequeno aeroporto de periferia? Não têm nenhum disponível?

- Temos vários. Mas os especialistas dizem que o novo aeroporto vai ser um hub ibérico, fazendo a trasfega de todos os voos da América do Sul para a Europa: um sucesso garantido.

- E tu acreditas nisso?

- Eu acredito em tudo e não acredito em nada. Olha ali ao fundo: sabes o que é aquilo?

- Um lago enorme! Extraordinário!

- Não: é a barragem de Alqueva, a maior da Europa.

- Ena! Deve produzir energia para meio país!

- Praticamente zero.

- A sério? Mas, ao menos, não vos faltará água para beber!

- A água não é potável: já vem contaminada de Espanha.

- Já não sei se estás a gozar comigo ou não, mas, se não serve para beber, serve para regar - ou nem isso?

- Servir, serve, mas vai demorar vinte ou mais anos até instalarem o perímetro de rega, porque, como te disse, aqui acredita-se que a agricultura não tem futuro: antes, porque não havia água; agora, porque há água a mais.

- Estás a dizer-me que fizeram a maior barragem da Europa e não serve para nada?

- Vai servir para regar campos de golfe e urbanizações turísticas, que é o que nós fazemos mais e melhor.

Apesar do sol de frente, impiedoso, ela tirou os óculos escuros e virou-se para me olhar bem de frente:

- Desculpa lá a última pergunta: vocês são doidos ou são ricos?

- Antes, éramos só doidos e fizemos algumas coisas notáveis por esse mundo fora; depois, disseram-nos que afinal éramos ricos e desatámos a fazer todas as asneiras possíveis cá dentro; em breve, voltaremos a ser pobres e enlouqueceremos de vez.

Ela voltou a colocar os óculos de sol e a recostar-se para trás no assento. E suspirou:

- Bem, uma coisa posso dizer: há poucos países tão agradáveis para viajar como Portugal! Olha-me só para esta autoestrada sem ninguém!

sábado, 7 de novembro de 2009

As contas do TGV: um comboio para implodir?


I - Economia e política da decisão


“É um empreendimento enorme e desproporcionado para a dimensão da economia portuguesa.”

“Os financiamentos comunitários para o período 2007-2013 para este tipo de projectos ascendem a €3,9 mil milhões, dos quais €383,38 milhões (10%!) foram atribuídos a Portugal. Devemos ter presente, para avaliar o significado destes números, que a população portuguesa representa 2,1% da população da UE e 1,4% do seu PIB e que é em torno destes valores que, a custo, se conseguem negociar as alocações dos diversos fundos comunitários destinados ao País.”

“Os países do Leste europeu, nossos concorrentes e parceiros, sabiamente, não embarcaram neste comboio.”

“O TGV é um projecto economicamente errado e socialmente injusto. Economicamente não é sustentável sem o concurso de enormes verbas do Estado, tanto para a construção como para a operação, e terá efeitos reduzidos ou negativos sobre o crescimento. Socialmente, os seus utilizadores, altamente subsidiados pelo Estado, não serão a grande massa da população mais necessitada nem das regiões interiores mais pobres e em decadência. Os custos e os benefícios do TGV são mal conhecidos. A propaganda da indústria e os interesses políticos imediatos retiram transparência às contas. Tirando a reprodução dos dados oficiais e alguns pronunciamentos críticos avulsos, em geral mal fundamentados, pouco se encontra que permita uma visão objectiva do projecto da alta velocidade em Portugal. O TGV é fruto de objectivos políticos bem precisos e localizados (caso de Espanha e China) e de estratégias industriais de certo capitalismo de Estado (Japão e França). “

“A alta velocidade é uma tecnologia altamente complexa e cara, que não resiste à prova do mercado, não sendo sustentável sem o profundo patrocínio e suporte dos Estados. É um encargo insuportável para países como Portugal, que lutam desesperadamente por um modelo económico viável. As apostas anteriores nas obras públicas não resultaram. Agora não será diferente. O que há de novo senão diferenças de protagonistas? Estamos nós a beneficiar do formidável programa de construção de auto - estradas dos últimos 20 anos? Que tem o TGV de especial que permitirá fazer diferente? Insiste-se no mesmo erro e os resultados serão replicados. Pressionados pela pulsão integradora de Espanha, pelas indústrias francesa e alemã e pela curta ideia de "modernidade" dos poderes públicos, o TGV pode efectivamente vir a construir-se, inclusivamente com as 5 linhas visionadas. Tudo dependerá da duração da crise internacional; se esta durar o TGV irá avançando. Se a crise se resolver, a pressão sobre o Orçamento do Estado será tão forte que o TGV parará onde estiver.”

“Os mesmos países que agora nos impulsionam a construir a alta velocidade serão os mesmos que, entretanto, com a suas contas arrumadas pelas suas pujantes economias, nos vão exigir talvez um novo corte nas pensões para poder suportar os custos das linhas então já existentes.”

“Procurarei mostrar nos próximos artigos, com base no que de mais avançado se conhece da análise económica da alta velocidade, que nenhuma linha de TGV se deveria construir em Portugal, agora ou no futuro, e que nunca tal foi no passado uma opção razoável. “

1 O presente artigo é o primeiro de uma série de 3 dedicada à análise económica da alta velocidade em Portugal. O 2º artigo avaliará os custos e o 3º os benefícios do projecto.
2 Em 2010, a Espanha ocupará o lugar do Japão como o país com a mais extensa rede de alta velocidade.

Avelino de Jesus - Director do ISG (Instituto Superior de Gestão)